A libertação em brilho e memória: Vanessa da Mata arrebata Curitiba e relembra conexão histórica com a cidade
A noite de sábado lá fora era fria e chuvosa, mas do lado de dentro do Teatro Positivo, o clima era de puro êxtase e calor humano. Com a casa completamente lotada, Vanessa da Mata provou mais uma vez por que é uma das forças mais magnéticas da Música Popular Brasileira. O domínio que a artista mantém sobre a plateia impressionou desde os primeiros acordes, transformando o palco em um ambiente glamuroso e profundamente cênico.
O espetáculo, emoldurado por uma deslumbrante cortina de brilhantes, foi milimetricamente pensado para contar uma história que vai do aprisionamento de uma mulher à sua total emancipação. A direção marcante de Jorge Farjalla deu vida à visão visceral da cantora. Em coletiva de imprensa realizada após a apresentação, Vanessa detalhou o conceito dessa construção: “A minha ideia era a de libertar essa mulher que começa muito presa, em muitos momentos até parece não recatada, mas uma mulher santa. E aí, dar vida a todas essas mulheres, no final uma mulher extremamente solta”.
Essa busca pela verdade e pela quebra de padrões também se refletiu na escolha estética e nos posicionamentos da artista durante a noite. “Eu faço muito o que eu desejo como mulher, como feminino ferido. Nós viemos de um DNA ferido feminino. Eu faço o que eu preciso fazer”, desabafou Vanessa, reforçando que sua arte é um reflexo de suas próprias inquietações sobre o mundo. Falando sobre canções contestadoras de seu repertório, ela foi categórica: “É uma necessidade enorme de dizer: ‘Escuta, a gente tá vivendo um novo século, né? Não entrem nessa loucura que é essa desorganização, essa objetificação feminina’”.
O ápice da sensibilidade nos bastidores aconteceu quando a cantora relembrou sua primeiríssima vinda a Curitiba, muito antes de lotar grandes teatros, para um show intimista e acolhedor no Teatro Paiol. O resgate dessa memória trouxe à tona o início de tudo: “Desde o início, no show do Paiol, eu já tinha a minha direção maravilhosa de Nelson Motta. Naquele pequeno teatro todo tomado pelas palavras e pela delicadeza das canções que eu fazia. E que eu entendi durante tantos anos, eu, muito diferente de tudo, dos cabelos a tudo, na minha época não existia nada do que eu era. Então eu era uma figura muito solitária. E de repente eu estava no colo das pessoas, e as pessoas no meu colo. Eu me senti totalmente acalentada, acariciada, amparada”.
Essa ligação histórica e afetiva com o público curitibano ajuda a explicar como clássicos de mais de duas décadas de carreira continuam atravessando gerações. Um exemplo recente desse impacto foi o convite para dividir o palco com o trio pop internacional Jonas Brothers, cantando o mega-hit "Boa Sorte". “Essa música, ela surgiu na minha cabeça, a parte da melodia, com milhares de pessoas cantando. Eu imaginei que ela seria um hit, mas não imaginei que seria tão grande”, confidenciou a cantora, completando com uma visão poética sobre o poder de suas composições: “A canção vem primeiro que eu. Então, pra mim, quando eu solto uma canção eu acho muito bonito, porque ela faz o papel dela: ela encanta quem ela quiser, ela termina namoros, ela alerta pessoas, ela se encaixa nas histórias”.
Essa capacidade de dialogar com diferentes públicos se reflete diretamente na forte presença de jovens em suas apresentações. Ao analisar esse fenômeno, Vanessa apontou uma busca da nova geração por conexões reais em meio a um mundo excessivamente digital. “Eu acho que existe um público pós-geração Z que é mais atento e quer coisas mais palpáveis, quer coisas mais realistas, quer coisas menos personagens. Quer estar aqui, né? Porque o telefone já tira muito você, ele já perturba muito, ele já te desconecta muito com a realidade, com o atual, com o agora”, concluiu a artista.
Para Curitiba, que mais uma vez respondeu com uma ovação de pé, o espetáculo foi a confirmação de que Vanessa da Mata permanece mestre em transformar suas dores e insatisfações em um manifesto sublime de afeto, beleza e libertação.